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A arte da fuga, por Vladimir Putin

por Jorge Ribeiro Mendonça, em 18.03.14

Ainda a propósito do post de ontem: Enquanto os países do Ocidente decidem o que fazer com a Rússia os investidores já começaram a sair do País. Até ao momento estima-se que $50 mil milhões (USD) já deixaram o país entre IPO's cancelados, financiamentos suspensos, valor das ações a cair e a continuar o ritmo o primeiro trimestre vai parar nos $70 mil milhões.


Recomendo a leitura do artigo da Bloomberg Businessweek As Investors Flee, Russia Inc. Is Feeling the Pain


Bravo!

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publicado às 14:38

Com a verdade me enganas

por Jorge Ribeiro Mendonça, em 17.03.14

A crise na Crimeia tem permitido tirar fotografias aos posicionamentos estratégicos de países e partidos. Mas chamo este assunto à baila para refletir sobre duas posições interessantes, a China e a Alemanha.


A China não quer sequer tocar no assunto e claramente não lhe interessa uma guerra. Aliás, à China não interessa sequer a existência de conflitos. A posição tem sido clara, a solução é diplomática e não deseja apoiar qualquer posição num conflito. Apoiar a Rússia seria contrariar a Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos e entrar numa guerra económica com potenciais danos colaterais para o “Chinese dream” de dominar o mundo. Apoiar a Ucrânia seria afrontar o aliado histórico – a Rússia.


Ao mesmo tempo, é muito relevante a abstenção da China na votação tomada no Conselho de Segurança da ONU de condenação do referendo na Ucrânia. A China afirma-se desalinhada da Rússia e isso é um desenvolvimento substancial no equilíbrio das posições. A abstenção da China é um revés para a Rússia.


A Alemanha segue outra posição tendencialmente neutral. Claramente a Alemanha está com os restantes países ocidentais, mas a dependência energética face à Rússia é um argumento de peso. A Alemanha é o maior consumidor de gás da Rússia. Se é verdade que este facto prende a Alemanha ao tabuleiro, não é menos verdade que a Rússia também tem a perder se a Alemanha decidir entrar em conflito. Resta saber quem tem mais a perder se a Rússia caso não consiga vender o Gás à Alemanha, se a Alemanha se não conseguir fornecimentos de Gás da Rússia e não consiga outros fornecedores.


A Alemanha tem que ir a jogo mesmo que não queira. Publicamente as declarações vindas da Alemanha têm-se confinado à necessidade de manter a integridade territorial da Ucrânia, mas nos bastidores a Chanceler Angela Merkel tem estado muito ativa e influente, na tentativa de resolução pacífica deste conflito. Uma jogada inteligente e que se arrisca a ser o seguro da paz mundial. Vamos ver se suficiente.


 


Está mais do que visto que ninguém quer esta guerra. Só o Senhor Putin é que está a insistir em avançar em contradição clara com o Direito internacional e em violação da lei ucraniana. Existe um desejo pessoal de Putin de recuperar a influência russa perdida. Ao mesmo tempo, por mais discutível que seja a sua validade, com o resultado do referendo de ontem Putin ganha força. Usando um meio democrático, o referendo, prossegue as suas pretensões totalitárias, uma espécie de “com a verdade me enganas”. E o designado Ocidente está-se a deixar levar.


 


Nota Final: recomendo vivamente a entrevista a Andrei Illarionov, ex-principal conselheiro económico de Vladimir Putin, publicada no Expresso de 8 de março de 2014 e que ajuda a compreender um pouco a mente de Putin.  


 


Nota Final 2: Sem me querer deter muito cá pelo burgo, e do muito que se tem dito por aí, não posso deixar de notar a crónica de Daniel Oliveira, revela em todo o seu esplendor a sua visão pró-russa, ao caracterizar que os partidos pró-Europa na Ucrânia são de Extrema-Direita. Que é o mesmo que dizer que a Europa e os Estados-Unidos, os partidos socialistas, sociais-democratas, democratas-cristãos e a Igreja – ou melhor as igrejas – estão a apoiar partidos não-democráticos. Se alguém está a prosseguir uma visão totalitária e nada democrática é Vladimir e a Rússia. Putin tem uma visão claramente decalcada de Hitler ou de Estaline que é totalitária. A discussão não pode ser desviada para a dicotomia Esquerda-Direita mas deverá centrar-se no respeito pelo Direito e pela Democracia.

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publicado às 12:20

Aquilo que se passa na Ucrânia vai já muito para além de uma luta entre os interesses pró- União Europeia ou os interesses pró-Rússia. Na verdade, Putin está a provocar um conflito prosseguindo os interesses de afirmação internacional da Rússia no concerto das nações, e pelo caminho procurar ganhar um território rico, a Crimeia, ou no limite a própria Ucrânia.


A União Europeia encontrou nas forças da oposição ucraniana um entusiasmo com o projeto europeu que parecia perdido. Na verdade, é difícil encontrar nos Países da União Europeia quem se bata com um entusiasmo proporcional em defesa do projeto europeu. Aquilo que se passa na Ucrânia deveria puxar pelo projeto europeu e renovar-lhe a esperança.


A par destes acontecimentos, a União Europeia prepara-se para eleições e ontem António José Seguro esteve na London School of Economics a proferir uma conferência na qual abordou diversos temas relacionados exatamente com este projeto europeu.


Os políticos portugueses tendem a falar e a comportar-se melhor lá fora do que cá dentro e António José Seguro não foi exceção. Falou eloquentemente sobre as suas ideias da Europa e sobre aquelas que devem ser a prioridades. E não é que esteve muito bem!?


António José Seguro apresentou propostas mais ou menos concretas (o que nem sempre é seu apanágio) que em resumo são as seguintes:


a) a eurozona deve ser uma verdadeira união política e monetária, com coordenação fiscal;


b) a constituição de um fundo europeu para a mutualização das dívidas soberanas acima do patamar dos 60%;


c) A separação do rating das empresas do relativo aos Estados;


d) o Banco Central Europeu (BCE) deve atuar contra a especulação de mercados.


Sem entrar em detalhe nas medidas, as quais merecem um debate sério, a intervenção de António José Seguro vale pela ideia de procurar um aprofundamento da união política e monetária.


Muitas vozes criticam a demora na intervenção da União Europeia, a descoordenação dos países da União Europeia na intervenção na Ucrânia, ou as indefinições no combate à crise económica e financeira que se abateu nos últimos anos. Mas na hora de se afirmar uma solução, tais vozes vêm logo erigir obstáculos a uma maior integração comunitária.


Ora, não haja dúvidas a solução para resolver os problemas nos processos decisórios e de tomadas de posição é mais União Europeia, através de maior integração política, maior coordenação monetária nos países da zona Euro, coordenação financeira e fiscal. No fim de contas, trata-se de procurar maior cooperação, coordenação e articulação entre os diversos países que compõem a União Europeia e a união monetária.

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publicado às 10:56