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Um dos argumentos que tem sido aventado contra o acordo ortográfico tem sido o “escândalo” de o Português de Portugal  se abrasileirar e que devia ser o contrário.


Este argumento padece de um grave tique arrogante e discriminatório que parte do entendimento de que o Português falado em Portugal (“PT-PT”) é mais correto do que o Português do Brasil (“PT-BR”) e que o Brasil não tem lições a dar a Portugal porque não saberá falar tão bem Português como os sapientes portugueses que há nove séculos que falam Português.


Nada mais errado!


Há nove séculos o que se falava por estas bandas está mais longe do Português atual do que o PT-PT está do PT-BR.


Aliás, provavelmente o PT-BR está mais fiel à língua que os Portugueses falavam quando andaram pelo Brasil do que o PT-PT está desse Português. Este é um movimento típico das línguas. Os povos de acolhimento de uma língua tendem a ser mais fiéis à língua recebida do que os povos de origem da língua.


Posto isto (e não me querendo alongar): o Português falado atualmente em Portugal é uma língua que tem sofrido mutações. Mutações essas que são muito expressivas quando andamos por zonas mais recônditas do País ou falamos com gente mais antiga.


Engraçado é notar que muitas expressões que caíram em desuso continuam a ser utilizadas no Brasil como expressões perfeitamente atuais e corriqueiras.


A opção agora é muito simples. Ou queremos fazer parte do barco em que está o Brasil e aceitamos que o nosso Português se aproxime do PT-BR ou escolhemos seguir o nosso caminho “orgulhosamente sós”.


No caminho do “orgulhosamente sós” teremos certamente uma língua totalmente distinta do que será o PT-BR ou o Brasileiro daqui a 50 ou 100 anos. Duas línguas que serão então tão distantes como é, hoje em dia, o Espanhol e o Português.


Eu prefiro seguirmos no mesmo navio do Brasil, e chamar para o barco Angola, Moçambique e todos os países de Língua Portuguesa. Eu prefiro que Portugal embarque numa viagem coletiva em que o Português se afirme como língua de negócios, língua relevante no concerto das nações.


Vem isto tudo a propósito da cerimónia de celebração de Nelson Mandela na qual Dilma Rousseff falou em Português. Ainda têm dúvidas sobre quem é que está a defender este património imaterial inestimável que é a Língua Portuguesa?

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publicado às 11:32